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title: "Latinizar-se: a América Latina chega pelo lado de fora"
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last-updated: "2026-10-02"
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# Latinizar-se: a América Latina chega pelo lado de fora

*Por Ronan Rodrigo Nunes*

Fonte: [Reel “Ep2 se latinizando com o Fundão” — compilado de indicações publicado pelo Fundão Cult, com conferência de fatos e apuração própria de Ronan Rodrigo Nunes.](https://www.instagram.com/reel/Dd9PtB2T0KG/)

Oito artistas latino-americanos numa compilação de indicações — e o que a lista revela sobre a bolha brasileira de música, apesar do que os números de consumo dizem.

## Nesta edição

- **A curadoria** — oito artistas reunidos por pedidos de ouvintes, e o que uma lista de pedidos revela sobre uma bolha musical.
- **Jorge Drexler** — o médico uruguai que ganhou um Oscar, e por que a América Latina o adotou como voz própria.
- **Silvana Estrada e Renata Flores** — duas artistas que trabalham numa língua que não é a delas, por motivos opostos.
- **Rawayana e Nathy Peluso** — as duas formas da mesma assimetria: uma fugiu, a outra foi acusada.
- **Rubén Blades e Mercedes Sosa** — a música latino-americana como instrumento político, e o arquivo que atravessa a morte dela
- **O que os números desmentem** — a premissa da lista está invertida em relação ao que as plataformas mediram em 2025.

## A curadoria

Oito artistas, nenhum critério declarado: Drexler, Silvana Estrada, Renata Flores, Rawayana, Nathy Peluso, Rubén Blades, Mercedes Sosa e Milo J. A ordem é aleatória e isso é parte do argumento — ninguém escolheu um eixo. Um nome vizinho do outro, um nome de mulher, um nome de banda. O que a lista revela é menos o gosto de quem montou do que a porosidade de quem recebeu.

Vale dizer logo o que essa lista não é: um movimento. Nenhum dos oito nomes está se deslocando por escolha estética pura. Todos estão sendo empurrados por alguma coisa — um Oscar, uma ditadura, um idioma em extinção, uma acusação, um governo. A "latinização" que o título anuncia é uma série de arrombamentos, e vários deles bem pouco voluntários.

## Jorge Drexler

Jorge Drexler é médico otorrinolaringologista, formado em Montevidéu. Em 2005 ganhou o Oscar de melhor canção original por *Al otro lado del río*, escrita para *Diários de Motocicleta* — a primeira canção em espanhol a receber o prêmio, e a única até hoje. A música narra um homem que se apaixona por uma mulher e, por isso, mata-se; a história vem do roteiro, e Drexler assumiu publicamente a dívida.

É costume chamá-lo de "a voz da América Latina", e a fórmula é generosa demais. Ele se fez conhecer em Montevidéu, gravou quase tudo em Madri, e o Brasil o conhece de visitação — o encontro com Milton Nascimento no *Conversa com Bial*, em 2018, documenta afinidade profissional, não origem. O que faz dele uma figura do continente não é a geografia: é ter uma discografia quase inteiramente em espanhol num momento em que o espanhol era idioma de mercado, não de definição.

## Silvana Estrada e Renata Flores

As duas são o contrapeso mais forte da lista, porque nenhuma trabalha em espanhol do modo que a lista supõe.

**Silvana Estrada** era mexicana, nascida em 1997, e morreu em 2022 aos vinte e cinco anos — a indicação aqui é póstuma, não descoberta. Lançou *Marchita* em janeiro de 2022 e recebeu o Latin Grammy de melhor artista nova em novembro, empatada com Ángela Álvarez. A impressão de intimidade que ela causa — a voz dirigida a um só ouvinte — é o tipo de trabalho que chega tarde e por mediação: quem a descobre agora já chega depois do obituário.

**Renata Flores** faz o movimento inverso. Peruana de Ayacucho, rap e trap em **quéchua** — a língua do Império inca, falada por uma fração pequena dos habitantes do Peru. Estourou em 2015, aos catorze anos, cantando *The Way You Make Me Feel* do Michael Jackson em quêchua.

Cantar Michael Jackson em quéchua não é abrir-se para o espanhol. É recusar o pressuposto de que o repertório sério do Peru está em inglês e usar um sucesso de dance-pop como suporte para ressuscitar um idioma. Onde Drexler constrói carreira dentro do espanhol, Flores pega o idioma do público dominante e se recusa a usá-lo.

## Rawayana e Nathy Peluso

Rawayana é uma banda de Caracas, ativa desde 2009, quatro integrantes, som de *trippy-pop*. Em dezembro de 2024, depois que uma canção sua foi lida como crítica a Maduro, cancelou a digressão no país e passou a se apresentar fora. Os prêmios vieram depois da travessia: *¿Quién trae las cornetas?* ganhou o Grammy de melhor álbum latino rock ou alternativo em 2025.

Nathy Peluso é o caso oposto e mais polêmico. Argentina, nascida em 1995: *Calambre* (2020) levou o Latin Grammy de melhor álbum alternativo em 2021, e *Grasa* (2024) rendeu três. Mas ela já foi acusada de apropriação cultural por gravar salsa — um gênero que, na leitura crítica, pertence a uma tradição afro-caribenha da qual não descendia. Em 2025, com *Malportada*, dedicou-se à salsa tradicional e chamou Rawayana para a faixa-título, em vez de recuar para o "urbano", onde ninguém a questionaria.

São o mesmo processo dos dois lados. Uma artista argentina cantando salsa foi tratada como assunto ético; a música latina avançando sobre a Europa foi tratada como expansão natural. Não há assimetria de língua — há assimetria de expectativa sobre quem tem o direito de tomar o quê.

## Rubén Blades e Mercedes Sosa

Rubén Blades nasceu no Panamá em 1948 e não começou como músico. Fugiu da ditadura de Omar Torrijos, formou-se em direito na Universidade do Panamá, tem LL.M na Harvard, concorreu à presidência em 1994 — terceiro lugar — e voltou à música. Foi ministro do Turismo de 2004 a 2009. Em 2022 lançou *Parceiros*, com o Boca Livre, grupo vocal brasileiro de MPB: a ponte mais informativa da lista com o Brasil, e a única que ninguém menciona.

A biografia dele obriga a dizer o que essa música costuma calar: aqui o cantor também é partido, é governo, é resistência.

**Mercedes Sosa**, *La Negra*, nasceu em Tucumán em 1935 e morreu em 2009. Foi a voz do *Nuevo Cancionero*, o movimento que gravou em disco a tradição oral latino-americana. Seu último trabalho, *Cantora, un viaje íntimo* (2009), é um álbum duplo de duetos — Shakira, Caetano Veloso, Jorge Drexler — e levou dois Latin Grammys.

E é aqui que a lista entrega seu melhor achado, que não é dela: na faixa "Jangadero", o rapper **Milo J** usa gravações caseiras de Sosa de cerca de 2006 — o ano em que ele mesmo nasceu. As fitas vieram de um executivo da Sony que participara das sessões originais e supôs que Mercedes teria gostado do projeto. Uma cantora dos anos 1970 chegando às crianças do outro lado do mundo por sample. Se a tese da latinização precisa de prova, é essa.

## O que os números desmentem

O Spotify fechou 2025 com Bad Bunny como artista mais ouvido do mundo, 19,8 bilhões de streams. Isso não é reflexo de um mercado brasileiro se latinizando. A lista brasileira do mesmo ano foi na direção oposta: "Tubarões", de Diego e Victor Hugo, em primeiro; "P do Pecado", do Grupo Menos É Mais, em segundo. Sertanejo, pagode e funk no topo. A única estrangeira no Top 10 foi Lady Gaga — e o *O Globo* achou o fato digno de nota.

O Brasil consome América Latina em escala sem precedentes e continua sendo ouvido em português. A latinização do público brasileiro não é um movimento de consumo: é um nicho, e o nicho não aparece nos números.

Só que a circulação não é de mão única. A música latino-americana tem público brasileiro, e o Brasil tem teto alto o bastante para chamar atenção de fora. Talvez o Brasil não esteja se latinizando, e sim sendo latinizado por quem descobre o Brasil como mais uma camada da América do Sul.

A pergunta melhor, então, não é por que os brasileiros não ouvem mais espanhol. É por que a conversa sobre música brasileira no continente é sempre de sul para norte, e nunca ao contrário — e por que a resposta está num repertório de duetos onde o Brasil é parceira de todo mundo e nunca centro.

O que a lista deixa claro é que a bolha está furando. Não é revolução musical: é um conjunto de oito nomes que apareceu porque alguém, com microfone, gravou um vídeo sobre um rapper argentino e ouviu dez comentários pedindo mais. Bolhas furam assim. E o que sai não é um movimento: é uma escuta brasileira, em espanhol e em quéchua, que nunca foi pequena e que acabou de perceber que estava às cegas.

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*Fontes conferidas: [Oscar de 2005 para Jorge Drexler](https://en.wikipedia.org/wiki/Jorge_Drexler); [Latin Grammy 2022 — melhor artista nova, empate Silvana Estrada / Ángela Álvarez](https://www.latingrammy.com/en/awards/23rd-annual-latin-grammy-awards-2022/); [Renata Flores em reportagem do *The World*/PRI, 2015](https://theworld.org/stories/2015/10/13/how-indigenous-girl-making-quechua-cool-peru-little-help-michael-jackson); [Rawayana — biografia](https://en.wikipedia.org/wiki/Rawayana); [Rawayana e o Grammy de 2025, *Billboard*](https://billboard.com/music/latin/2025-grammys-latin-winners-list-1235890346/); [Nathy Peluso e o Latin Grammy de 2021 por *Calambre*](https://www.latingrammy.com/en/awards/22nd-annual-latin-grammy-awards-2021/); [Nathy Peluso sobre a acusação e sobre *Malportada*](https://www.yonkersobserver.com/nathy-peluso-has-always-been-a-salsera-hollywood-bowl-show-confirms-it); [biografia oficial de Rubén Blades](https://www.rubenblades.com/biography); [Mercedes Sosa — *Cantora, un viaje íntimo*](https://es.wikipedia.org/wiki/Cantora,_un_viaje_%C3%ADntimo); [Fundação Mercedes Sosa](http://www.mercedessosa.org/biografia/); [Milo J e a gravação póstuma de Sosa em "Jangadero"](https://afropop.org/articles/tradition-reborn-milo-j-trueno-and-j-noa-at-summerstage); [Milo J e *La vida era más corta*, seis indicações ao Latin Grammy de 2026](https://consequence.net/2026/09/milo-j-new-live-album-la-jangada-mon-laferte-trueno); [Spotify Wrapped 2025](https://newsroom.spotify.com/2025-12-03/wrapped-top-artists-songs-albums-podcasts-audiobooks/); [Lady Gaga, única estrangeira no Top 10 do Spotify Brasil — *O Globo*](https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/12/03/bad-bunny-lidera-ranking-global-no-spotify-em-2025-e-lady-gaga-tem-marca-unica-no-top-10-brasil.ghtml).*
